A DANÇA DA LAMPARINA

Antes do sol ser içado para o centro do firmamento, seus raios são


delicadas faíscas douradas, que pintam de vida a folhagem da escura mata.


Para o sol iluminar as terras férteis da grande fazenda, inda faltam algumas


horas.


Está tudo na mais perfeita ordem. Ainda abria os olhos com dificuldade.


Figuras diabólicas, de repente, povoaram meu pensamento e encheram de


horror meu despertar. Via ao meu lado dois horrendos negros ensanguentados,


aqueles que foram sacrificados no terreiro. Ainda via as marcas das


chibatadas. Sangrando as feridas!? Aparentemente teriam dormido comigo?!


Seria um sonho ruim? Tentei gritar e o medo aprisionava a voz.


Aquele era um momento de horror. Parecia um pesadelo terrível. A


gelidez dos corpos chegavam até mim. Fechei os olhos, estremeci e lembrei


tudo que vivi na noite anterior. Caminhei pelo bambuzal e vi alma penada, ouvi


o relincho da mula-sem-cabeça e o barulho dos seus cascos a riscar o chão.


Um vento frio passou pela alma deste mortal. Precisava sair dali e contar para


alguém. Só assim isto não mais acontecerá comigo, pensei.


Levantei sorrateiramente. O espelho mostrava minha palidez.


Vi o céu! Finalmente acordei, verdadeiramente, pensei. A lamparina,


ainda acesa, traçava vultos assustadores na parede.


A luz do dia estava começando a chegar só iluminava um pouco das


casas e a visão do cemitério, uma construção que ficava no terreno mais alto


desta fazenda ainda em formação, me impressionava pelo silêncio sepulcral.


Ali jazia o Pretinho, o Purumé, a Sinhazinha, o Sinhozinho e muitos outros.


Neste início de madrugada, enquanto o bacurau procura abrigo, não se


ouve mais o piar da coruja agourenta nem aquele canto insistente do amanhã-


eu-vou. O barulho começa devagarinho lá na cozinha avisando aos mortais que


é hora de levantar, de cuidar da criação e sair para o trabalho na roça.


O carro de boi chiando ao longe, rompe matas, desbrava silêncios,


sobrevive na imensidão dos campos e no coração dos homens. O seu canto


sempre chega antes de sua passagem.


O carro de boi é usado para transportar tudo na fazenda, principalmente


defunto.


Hoje o barulho era diferente, mais intenso. Ouvia-se choro e ranger de


dentes. Coloquei a cabeça para fora do quarto e apreciei o clima de dor. Fui


devagarinho até a dispensa, cheia de sacos e teias de aranha. Um caixão todo


enfeitado de flores descansava no meio da sala. As carpideiras choravam mais


que a esposa do capitão porque esta andava muito cansada. Ouvi alguém


falando: a filha do coroné morreu de madrugada!


Chegou gente de toda parte. Era tão bonito de se ver a procissão


rumando para o cemitério!


Contaram que ela teve uma dor de cabeça muito forte. Os irmãos diziam


que era mentira. Foi tradada com chá de erva-doce e na madrugada morreu.


Na mesma madrugada apareceu, puxou a perna dos irmãos e disse: Não falei


que estava doente de verdade?


Era localizada numa região iluminada pelo sol do novo mundo. Tão


deslumbrante quanto perigosa, desbravar essas terras demanda coragem e


disposição, farejo de trilha e muito facão para encontrar as velhas picadas


deixadas pelos últimos índios, primeiros habitantes da região.


Nasci na roça e cresci contaminado com a cantiga do carro de boi, o


ranger do bambuzal, o piado das corujas, o voo rasante dos morcegos e


aranhas cabeludas por toda parte. Da mula sem cabeça que rinchava, do


lobisomem do angico, do chupa cabras, tudo isso sabia de viver e aprender.


O belo canto da coruja traz medo pra muita gente, é presságio de


destruição sofrimento e morte iminente. Para mim, acostumada com tantas


coisas estranhas, quando a coruja canta é sinal de liberdade e de grandes


vitórias.


Certo dia, juntando forças para vencer o cansaço e o medo da


escuridão, eu caminhava com a lanterna na mão. Não estava só. A conversa ia


espaçada pelo medo que ia batendo forte no coração. No bambuzal uma voz


veio aos ouvidos de quem quisesse ouvir: Aqui jaz Zeferino, o Pretinho do


curral, mas como alma penada perambula pelas plantações. Dois olhos


brilharam na escuridão.


Procurei a lanterna que caíra no chão e a encontrei aos pedaços. Além


de tudo, há algum tempo, falava-se por aquelas bandas de um tal de chupa-


cabras que era acusado de ter causado a morte de alguns bois. Ninguém viu


ainda porque ele tem hábitos noturnos e muda sempre de forma.


Na estrada escura uma lanterna, um lampião ou uma lamparina de


querosene reinavam solenes na Casa Grande, naquela noite de lua cheia. Nos


pobres casebres dos colonos, só o fogão a lenha iluminava a noite, lá bem


distante. O canto dos pássaros noturnos provocava arrepios e contrações


repentinas, incontroláveis, involuntárias que obrigavam o viajante apressar o


passo. As pernas apertaram o passo, apertaram até ao limite. Nem cavalo


passava adiante. Era preciso sair daquele bambuzal mal assombrado.


Depois de um dia de peleja, o cansaço do dia batia forte. Até o farfalhar


das folhas secas causava medo e obrigava apressar o passo. Logo adiante,


envolto na neblina, um vulto todo de branco flutuava no ar, lá pros lados do


angico. Os bois assustados pressentiam a presença de alma de outro mundo.


Petrificados, olhávamos para aquele vulto de fantasma em seu bailado


macabro.


Então era verdade. Na baixada do angico vagava a alma penada de uma


moça que, morta de amor, acabara com a sua própria vida.


Cruz Credo! Ave Maria!


Mas bastava sentir o cheiro da fumaça do fogão a lenha, do mato ao


redor ou o marulhar do rio que passava atrás da casa grande para revigorar


este pobre colono.


Ao cair da noite, os colonos chegavam de todos os lados formando


bandos. Traziam enxadas nos ombros, facões na cintura e eram, a princípio,


ariscos. Sentavam no chão, coçavam os dedos, acariciavam os pés cansados


e com canivete de ponta fina tiravam calos dos pés. Se algum bicho-de-pé


incomodava, arrancava inteirinho e ao fogo da lamparina queimavam e riam ao


escutar o estalinho do bicho assando.


Assim distraídos, como boi manso no engenho, esperavam o gole de


pinga que saía do alambique do patrão. Melhor remédio para acalmar os


ânimos, soltar a língua, curar dor de dente, espinhela caída e até dor de


cotovelo ou de algum chifrudo. Enquanto esperavam contavam a história de


cada um. Logo alguém lembra da mula sem cabeça que, nas noites de lua


cheia, passa pelas cercanias relinchando furiosamente e soltando chispas de


fogo pelas ventas. Corre pelas matas assustando pessoas e animais. Aos


pinotes rodava as casas e seus cascos riscavam o terreiro tudo acompanhado


de forte relincho. Depois saíam cambaleando rumo ao rancho de cada um.


O pelourinho fica bem ao centro da fazenda, do outro lado da trilha que


leva para o cemitério.


O silêncio era aterrador. Deitado em minha cama, esperava que o


silêncio da noite calasse novamente o povo da terra.


A lamparina ainda acesa traçava figuras na parede. Gostava de apreciar


a pequena chama em sua dança, ao sabor da brisa. Na parede apareciam as


lagartixas. Vinham pé ante pé, lentamente, em compasso binário cadenciado.


Tinham técnica, as danadas! Calculavam cada passo para não assustar sua


presa, os insetos que descansavam na parede, ou os desatentos que voavam


ao redor da chama. Vinham até bem perto e, zás! Engoliam a primeira vítima.


Mais tarde era a vez das aranhas que visitavam o meu humilde quarto.


Chegavam geralmente em duplas ou trios. Eram horrendas as cabeludas.


Estavam sempre irritadas e prontas para o ataque.


E eu ali apreciando o espetáculo aguardando o galo cantar pela primeira


vez. Meu coração acelerado e meu peito arquejante anunciavam a próxima


função.


Como as aranhas e as corujas, vivo melhor quando a noite chega.


Durante o dia sou um depois outro. O canto do galo despertava em mim a fera


que me habitava. Saía pelos campos a procura de carne nova para ser


imolada. O sacrifício era o meu prazer, a minha satisfação do meu instinto de


fera ferida pela vida de escravo.


Minha sombra era o único sinal de um ser vivo por toda a redondeza.


Fumando compulsivamente um cachimbo, galopava até o bambuzal. Era como


espírito desencarnado a vaguear pelos vales e campos trazendo medo para


pobres e ricos. Há quem diga que o grito que ouviam era choro de mulheres


que foram mortas por homens ciumentos. Outros dizem que os gritos e pedidos


de socorro reverberando através do bambuzal eram dos escravos que foram


enterrados ali.


Como a dança da lamparina na parede esburacada é indecifrável, até


hoje ninguém ainda descobriu quem, em noite de lua cheia, abusa das


mocinhas, espantas as velhinhas e chupa o sangue das galinhas.